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Empoderamento como prática social feminista negra

admin

Por Tayná V.L Mesquita 

A categoria empoderamento já pode ser considerada êmica, em especial entre a juventude negra. A palavra é derivada da expressão empowerment (que significa dar poder) e que foi empregada pela primeira vez pelo psicólogo norte-americano Julian Rapport, defendendo que era necessário oferecer ferramentas aos grupos oprimidos com vistas a sua autonomia e desenvolvimento. Tal palavra, seria ressignificada por Paulo Freire, nos anos 1980, recebendo um sentido diverso: empoderamento, ao invés do exercício de receber poder de um outro, estaria relacionado a conquista interna do sujeito que, constituindo-se agente, transforma não apenas a si mesmo, mas também a sociedade em que se vê inserido. Assim, são os próprios grupos oprimidos que devem se empoderar a si próprios. 

Na atualidade, o termo tem se tornado cada vez mais comum e com sua popularização surgem questionamentos sobre os reais sentidos do mesmo, bem como, apropriações adversas e esvaziadas. Uma delas diz respeito aos usos oportunistas da iniciativa privada, que por vezes reduzem a noção de empoderamento a aquisição de poder econômico dentro do sistema capitalista. Em outros casos, aquelas perspectivas que reduzem a ideia de empoderamento ao âmbito privado, seja em termos de aquisição de poder econômico, seja no campo da estética. 

Diante dessa diversidade de sentidos, vale a pena relembrarmos que a ideia de empoderamento, bem antes de ser conceituada por Paulo Freire – um movimento que passa pelo individuo, mas que se formaliza coletivamente, com vistas a transformação da realidade social – tem sido tomada como práxis pelos movimentos negros, em especial, o de mulheres negras, há centenas de anos. Na realidade, é mesmo possível dizer, que tal perspectiva de empoderamento é parte dos valores civilizatórios dos povos africanos trazidos à diáspora, onde sujeito e coletivo não se desassociam. Valores que apontam para conexão de cada indivíduo com o outro e com a natureza de forma geral. Assim, a categoria de empoderamento para o povo negro faz sentido quando toma-se como base o valor civilizatório expresso na palavra de origem banto “Ubuntu”: “Eu sou, porque tu és” ou “a minha humanidade está inextricavelmente ligada à sua humanidade”. 

Conforme afirma bell hooks (2017), citando um diálogo seu com Paulo Freire, “nós não podemos entrar na luta como objetos para nos tornarmos sujeitos mais tarde.” Esse é o sentido de empoderamento que tem sido historicamente praticado pelo movimento feminista negro. Das irmandades e confrarias negras, como a da “Boa Morte”; os terreiros de Candomblé, fundados e comandados, em seus primeiros anos, exclusivamente por mulheres

negras (as três princesas de Oyó, Iyá Detá, Iyá Kalá e Iyá Nassô, nos terreiros de nação Ketu; Ludovina Pessoa, daomeana fundadora dos primeiros terreiros de nação Jeje, Maria Neném, a Mam’etu Tuenda dia Nzambi, a grande mãe do Candomblé de nação Angola, Maria Jesuína a rainha daomeana Nã Agontimé, fundadora da Casa das Minas); às lutas quilombolas de ontem e hoje, a atuação em grupos políticos, culturais, as primeiras organizações autônomas do movimento de mulheres negras fundados a partir dos anos 70, aos coletivos, frentes, ONGs, estratégias de ocupação dos espaços institucionais de poder, em candidaturas negras e feministas, mandatas coletivas e mandatas-quilombos, etc, nas movimentações diversas, das quais o Fundo Agbara faz parte (figurando enquanto o primeiro voltado à mulheres negras no Brasil), o sujeito político “mulher negra”, tem mostrado que empoderamento diz respeito a reinscrever-se no mundo, a partir dos próprios termos e em saídas coletivas e subvertivas do status quo

Pensando no Fundo Agbara em especial, sua articulação, além de contribuir para o combate a desigualdades econômicas e o combate à realidade de pauperização de famílias negras, em maioria chefiadas por mulheres (e mais duramente atingidas no contexto de recrudescimento das desigualdades sociais, impulsionado pela pandemia de COVID-19), enfatiza o caráter coletivo do empoderamento. Para além do econômico, preza-se pelo cuidado das mulheres envolvidas de forma integral: atividades destinadas ao autocuidado e saúde mental, atividades destinadas à formação e conscientização crítica – letramento racial e formações direcionadas ao universo do empreendedorismo e educação financeira – além de estabelecer um espaço de trocas não apenas entre beneficiárias, mas também uma rede de letramento racial voltada aos doadores, com atividades abertas diversas. Assim, a atuação do grupo constitui um rico exemplo de organização feminista negra que opera a categoria empoderamento muito além do indivíduo – afinal, as saídas históricas de nosso povo sempre foram coletivas. 

Nesse sentido, compreendemos que a noção de empoderamento aqui mobilizada, vivenciada e defendida, compõe o quadro conceitual e de prática social mais amplo de uma Pedagogia Feminista Negra: resultado da práxis feminista negra ao longo da história, trata-se de uma pedagogia da pratica da liberdade, onde se articulam saberes compartilhados nos diferentes espaços de aquilombamento constituitdos pelas mulheres negras. Deles, extraímos formas de sociabilidade, coletivização de recursos materiais, ressignificação de valores e imaginários, com vistas à formação de novos marcos civilizatórios. Práticas sociais de reinscrição subjetiva e objetiva no mundo. Mulheres negras resistem e são as potenciais transformadoras do mundo! Viva Agbara!

Para se antenar mais no debate: 

BERTH, Joice. O que é empoderamento?. Belo Horizonte: Letramento, 2018. Collins, Patricia Hill. Pensamento Feminista Negro. São Paulo: Boitempo, 2019. 

Tayná V.L. Mesquita é Socióloga e Mestre em Educação pela Unicamp. Atualmente é também Doutoranda em Ciências Sociais, na mesma instituição, na linha de estudos de gênero (PAGU/UNICAMP). Pesquisadora, consultora em diversidade e educadora no campo dos direitos humano, com enfoque para promoção do direito à educação, igualdade racial e de gênero. É embaixadora da campanha #JuntosPelaTransformação de Djamila Ribeiro (2020), e autora do livro “Exclusão Escolar Racializada” (2019) co-organizadora do e-book “Pedagogia Feminista Negra para a Promoção de Novos Marcos Civilizatórios” (2021) e autora da cartilha antirracista “Vidas Negras Importam: em Campinas, também” (2021), promovida pela Prefeitura Municipal de Campinas e o Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Campinas. E-mail: contato.taynamesquita@gmail.com / @taynamesquitta (instagram)

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