Os dados do IJER revelam a persistência das desigualdades econômicas que atravessam a vida das mulheres negras e ajudam a refletir sobre sua presença nos espaços de representação política nas eleições de 2026.
Em um ano eleitoral, onde se definem a presidência da república, o senado e as câmaras estaduais e federais, olhar para o perfil do eleitorado e das candidaturas é importante. Mas os dados também permitem fazer outra pergunta: quem participa da disputa democrática e em que condições?
O Brasil chega às eleições de 2026 com mais de 158 milhões de pessoas aptas a votar e com um eleitorado majoritariamente feminino. Isso mostra que as mulheres representam cerca de 52,8% do eleitorado brasileiro. Quando incorporamos o recorte de raça e gênero, duas questões se destacam: elas permanecem em condições mais precarizadas de acesso à justiça econômica; e subrepresentadas entre as eleitas, embora sejam aquelas em maior registro de candidaturas, dentre as que registraram a informação de raça ou cor.

O que o IJER revela sobre as desigualdades econômicas
Segundo o Índice de Justiça Econômica Racial (IJER), mulheres negras apresentam os menores níveis de justiça econômica entre os grupos analisados, evidenciando como raça e gênero estruturam o acesso a dimensões básicas da vida. Ao reunir indicadores de trabalho e renda, educação e condições de moradia em uma única medida, o índice permite acompanhar não apenas os níveis de justiça econômica alcançados por cada grupo, mas também a velocidade ou a lentidão com que essas desigualdades se alteram ao longo do tempo.
Os resultados do IJER demonstram aquilo que os movimentos de mulheres negras vêm afirmando há décadas. Entre 2016 e 2023, as mulheres negras constituíram o único grupo que permaneceu abaixo da média nacional de justiça econômica em todos os anos analisados. Em 2016, enquanto o IJER das mulheres negras era de 0,49, o dos homens brancos alcançava 0,67, uma diferença de aproximadamente 0,18 ponto. Sete anos depois, em 2023, embora ambos os grupos tenham registrado melhora, as mulheres negras alcançaram 0,53 e os homens brancos, 0,69, mantendo uma distância de aproximadamente 0,16 ponto.
Todos os grupos avançaram ao longo do período. Mas esses avanços não alteraram a hierarquia das desigualdades observadas. Nesse sentido, homens brancos permaneceram com os maiores níveis de justiça econômica, seguidos por mulheres brancas, homens negros e, por último, mulheres negras. Assim, mais do que evidenciar diferenças pontuais entre os grupos, os resultados mostram a persistência, ao longo do tempo, de desigualdades produzidas pela articulação entre raça e gênero.
Diante desse cenário, a persistência dessas desigualdades que torna o debate eleitoral relevante. Se as mulheres negras permanecem como o grupo com os menores níveis de justiça econômica, o que acontece quando colocamos esse diagnóstico em diálogo com sua presença na população, no eleitorado e na disputa por representação política?
Da candidatura à representação: quem chega nos espaços de decisão?
Se o perfil do eleitorado ajuda a compreender quem participa da democracia pelo voto, os dados sobre candidaturas permitem observar o outro lado dessa relação: quem está presente na disputa por representação?
A comparação entre os dados de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a composição da população brasileira (Ipea, 2022) revela diferenças importantes entre o peso de cada grupo na população e sua presença entre as candidaturas.
| Grupo por gênero e raça | Proporção na população | Proporção das candidaturas |
| Homens brancos | 21% | 33,71% |
| Homens negros | 27,5% | 30,36% |
| Mulheres brancas | 22,5% | 16,46% |
| Mulheres negras | 28% | 18,01% |
Para as mulheres negras, portanto, os dados colocam lado a lado diferentes dimensões da desigualdade: elas permanecem com os menores níveis de justiça econômica e apresentam uma participação entre as candidaturas inferior ao seu peso na população. E a candidatura é apenas uma etapa desse processo. Estar na disputa não significa chegar aos espaços de decisão, é necessário observar também em que medida essas candidaturas se convertem em representação efetiva. Nesse sentido, a discussão sobre representação envolve tanto a presença das mulheres negras na disputa eleitoral quanto as barreiras que podem limitar sua chegada aos espaços de decisão.
Contudo, a representação política é apenas uma dimensão dessa discussão. Os resultados do IJER também colocam no centro do debate eleitoral as desigualdades concretas que atravessam a vida das mulheres negras. Trabalho e renda, educação e condições de moradia são dimensões nas quais o índice mostra a persistência de desigualdades e que, ao mesmo tempo, são atravessadas por decisões e políticas públicas.
O que está em jogo nas eleições de 2026?
As eleições de 2026 colocam, portanto, uma dupla questão: quem ocupa os espaços de decisão e quais respostas as diferentes candidaturas apresentam para enfrentar as desigualdades que atingem as mulheres negras? Desse modo, é preciso ampliar a discussão sobre como a presença das mulheres negras nos espaços de representação também implica observar como a justiça econômica racial aparece no debate público e quais compromissos e respostas são apresentados pelas diferentes candidaturas diante das desigualdades evidenciadas pelo IJER.
Nesse sentido, o IJER pode contribuir para o debate eleitoral: ao evidenciar onde estão as desigualdades e quem é mais afetado por elas, os dados também apontam para os desafios que precisam ocupar o centro da agenda pública. Em 2026, avançar em direção à justiça econômica racial passa por ampliar a presença das mulheres negras nos espaços de decisão e por transformar as desigualdades que marcam suas vidas em prioridades políticas concretas.